O cinema, quando deixa de ser
apenas visto e passa a nos encarar de volta, abre um campo raro de experiência.
É nesse território que se instala o ciclo “Quando o Cinema Te Olha!?...”, que o
Cineclube Lanterna Mágica, da Unisanta, realiza de 23 de abril a 25 de junho de
2026, sempre às quintas-feiras (com exceções, vale conferir a programação
completa em www.unisanta.br/cineclube).
As sessões acontecem no 5º andar do bloco E (Rua Cesário Mota, 8, Boqueirão,
Santos/SP), com entrada gratuita, convidando não apenas cinéfilos experientes,
mas qualquer pessoa disposta a se deixar atravessar por um filme, e
principalmente, a atravessá-lo de volta.
A proposta é transformar a sessão
de cinema em um espaço vivo de percepção acessível a todos. Após cada exibição,
os debates ampliam o olhar a partir da fenomenologia da paisagem, da geografia
do cinema e do conceito de “complexo” da psicologia analítica de Carl Gustav
Jung, articulando ainda recortes da “banalidade do mal”, de Hannah Arendt. Tudo
isso em diálogo com o pensamento do geógrafo Milton Santos, cujo centenário é
celebrado ao longo do ciclo. A ideia não é explicar os filmes, mas expandi-los,
como quem abre uma janela dentro da própria experiência de assistir.
E há ainda um gesto inusitado que
promete provocar e causar muita pirraça: a presença de uma geladeira como
dispositivo dentro da sala de cinema. Mais do que um objeto, ela surge como
metáfora e disparador crítico. Inspirada em reflexões que atravessam desde a
psicanálise até leituras contemporâneas do cotidiano, a geladeira, esse lugar
onde guardamos desejos, excessos, faltas e impulsos, aparece como extensão do
espectador. Quem nunca se pegou diante dela sem saber exatamente o que procura?
No cinema, esse gesto se repete: buscamos imagens que nomeiem o indizível,
abrimos narrativas como quem abre portas, confrontamos nossos “complexos”, no
sentido junguiano, projetados na tela. Ao incorporar esse elemento no espaço
expositivo, o ciclo convida o público a perceber o ato de assistir como um ato
também de desejo, repetição e descoberta.
A programação percorre diferentes
tempos, países e sensibilidades, sempre conectando as obras ao presente. A
abertura, no dia 23 de abril, às 18h30, será especial: um cine debate celebra
os 50 anos de Taxi Driver, de Martin Scorsese, um clássico que continua
inquietantemente atual ao nos colocar frente a frente com a solidão, a
violência e os abismos urbanos. Participam do encontro o cineasta Eduardo
Ricci, a diretora de arte Márcia Okida e o diretor de fotografia Rodrigo Samia.
Eduardo Ricci é um nome
fundamental da cena audiovisual santista: cineasta, fotógrafo e criador do
próprio Cineclube Lanterna Mágica, atua desde 1995 explorando o cinema como
experiência expandida, seja em filmes, exposições ou projetos imersivos como o “Verticidades”
e o recente “Café Aroma Cine”. Já Márcia Okida, designer e artista visual,
construiu uma trajetória sólida na formação de profissionais e na pesquisa da
linguagem estética. Rodrigo Samia, por sua vez, é diretor de fotografia com
reconhecimento em festivais nacionais e internacionais, destacando-se pela
investigação da luz como elemento narrativo e pela atuação na formação de novos
realizadores.
Ao longo das semanas, o público
poderá acompanhar uma seleção diversa e instigante: no dia 30/04, “A voz de
Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania; em 07/05, “Foi Apenas Um Acidente”, de
Jafar Panahi; em 14/05, “O agente secreto”, de Kléber Mendonça Filho; em 21/05,
“Vermelho, Branco e Sangue Azul”, de Matthew López; em 28/05, “Valor
Sentimental”, de Joachim Trier; no dia 01/06, uma sessão especial para celebrar
o centenário de nascimento da atriz Marilyn Monro, com a exibição do clássico “Quanto
Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder; em 11/06, “Pecadores”, de Ryan Coogler;
em 18/06, “Hamnet – A vida Depois de Hamlet”, de Chloé Zhao; e encerrando o
ciclo, em 25/06, “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater.
Mais do que uma mostra, “Quando o
Cinema Te Olha!?...” se propõe como um exercício de presença. Um convite para
que cada espectador deixe de ser apenas público e se torne parte ativa da
experiência, alguém que não só vê, mas é visto, afetado e transformado. Para
participar, basta chegar no horário e garantir seu lugar, sujeito à lotação.
Quem comparecer a pelo menos 75% das sessões receberá uma declaração de
participação, válida como curso livre em análise de filmes.
A iniciativa é realizada pelo
Cineclube Lanterna Mágica – Unisanta, em parceria com a produtora Ricci Filmes
e o Sistema Integrado de Bibliotecas da Unisanta, com apoio cultural da Vídeo
Paradiso. Em tempos de consumo acelerado de imagens, o ciclo propõe algo mais
raro: parar, olhar e permitir que o cinema, finalmente, olhe de volta.

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