quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cineclube coloca a geladeira na sala para debater filmes em novo ciclo

O cinema, quando deixa de ser apenas visto e passa a nos encarar de volta, abre um campo raro de experiência. É nesse território que se instala o ciclo “Quando o Cinema Te Olha!?...”, que o Cineclube Lanterna Mágica, da Unisanta, realiza de 23 de abril a 25 de junho de 2026, sempre às quintas-feiras (com exceções, vale conferir a programação completa em www.unisanta.br/cineclube). As sessões acontecem no 5º andar do bloco E (Rua Cesário Mota, 8, Boqueirão, Santos/SP), com entrada gratuita, convidando não apenas cinéfilos experientes, mas qualquer pessoa disposta a se deixar atravessar por um filme, e principalmente, a atravessá-lo de volta.

A proposta é transformar a sessão de cinema em um espaço vivo de percepção acessível a todos. Após cada exibição, os debates ampliam o olhar a partir da fenomenologia da paisagem, da geografia do cinema e do conceito de “complexo” da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, articulando ainda recortes da “banalidade do mal”, de Hannah Arendt. Tudo isso em diálogo com o pensamento do geógrafo Milton Santos, cujo centenário é celebrado ao longo do ciclo. A ideia não é explicar os filmes, mas expandi-los, como quem abre uma janela dentro da própria experiência de assistir.


E há ainda um gesto inusitado que promete provocar e causar muita pirraça: a presença de uma geladeira como dispositivo dentro da sala de cinema. Mais do que um objeto, ela surge como metáfora e disparador crítico. Inspirada em reflexões que atravessam desde a psicanálise até leituras contemporâneas do cotidiano, a geladeira, esse lugar onde guardamos desejos, excessos, faltas e impulsos, aparece como extensão do espectador. Quem nunca se pegou diante dela sem saber exatamente o que procura? No cinema, esse gesto se repete: buscamos imagens que nomeiem o indizível, abrimos narrativas como quem abre portas, confrontamos nossos “complexos”, no sentido junguiano, projetados na tela. Ao incorporar esse elemento no espaço expositivo, o ciclo convida o público a perceber o ato de assistir como um ato também de desejo, repetição e descoberta.


CINE DEBATE - 50 ANOS DE TAXI DRIVER

A programação percorre diferentes tempos, países e sensibilidades, sempre conectando as obras ao presente. A abertura, no dia 23 de abril, às 18h30, será especial: um cine debate celebra os 50 anos de Taxi Driver, de Martin Scorsese, um clássico que continua inquietantemente atual ao nos colocar frente a frente com a solidão, a violência e os abismos urbanos. Participam do encontro o cineasta Eduardo Ricci, a diretora de arte Márcia Okida e o diretor de fotografia Rodrigo Samia.

Eduardo Ricci é um nome fundamental da cena audiovisual santista: cineasta, fotógrafo e criador do próprio Cineclube Lanterna Mágica, atua desde 1995 explorando o cinema como experiência expandida, seja em filmes, exposições ou projetos imersivos como o “Verticidades” e o recente “Café Aroma Cine”. Já Márcia Okida, designer e artista visual, construiu uma trajetória sólida na formação de profissionais e na pesquisa da linguagem estética. Rodrigo Samia, por sua vez, é diretor de fotografia com reconhecimento em festivais nacionais e internacionais, destacando-se pela investigação da luz como elemento narrativo e pela atuação na formação de novos realizadores.


Ao longo das semanas, o público poderá acompanhar uma seleção diversa e instigante: no dia 30/04, “A voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania; em 07/05, “Foi Apenas Um Acidente”, de Jafar Panahi; em 14/05, “O agente secreto”, de Kléber Mendonça Filho; em 21/05, “Vermelho, Branco e Sangue Azul”, de Matthew López; em 28/05, “Valor Sentimental”, de Joachim Trier; no dia 01/06, uma sessão especial para celebrar o centenário de nascimento da atriz Marilyn Monro, com a exibição do clássico “Quanto Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder; em 11/06, “Pecadores”, de Ryan Coogler; em 18/06, “Hamnet – A vida Depois de Hamlet”, de Chloé Zhao; e encerrando o ciclo, em 25/06, “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater.

Mais do que uma mostra, “Quando o Cinema Te Olha!?...” se propõe como um exercício de presença. Um convite para que cada espectador deixe de ser apenas público e se torne parte ativa da experiência, alguém que não só vê, mas é visto, afetado e transformado. Para participar, basta chegar no horário e garantir seu lugar, sujeito à lotação. Quem comparecer a pelo menos 75% das sessões receberá uma declaração de participação, válida como curso livre em análise de filmes.


A iniciativa é realizada pelo Cineclube Lanterna Mágica – Unisanta, em parceria com a produtora Ricci Filmes e o Sistema Integrado de Bibliotecas da Unisanta, com apoio cultural da Vídeo Paradiso. Em tempos de consumo acelerado de imagens, o ciclo propõe algo mais raro: parar, olhar e permitir que o cinema, finalmente, olhe de volta.


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